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Produtos básicos estão mais caros, mas culpa não é de empresários. Entenda qual é a raiz do problema.

08.Setembro.2020

Nas últimas semanas, o preço de alguns produtos básicos de alimentação, como arroz, feijão, óleo e leite dispararam nas gôndolas dos supermercados de todo país. Em diversos posts publicados nas redes sociais, internautas têm compartilhado fotos e relatos de aumentos de 30%, 40% e até maiores que 80% nos itens da cesta básica.

Na maioria dos casos, o post é acompanhado de uma crítica aos estabelecimentos comerciais e aos produtores, que estão sendo apontados como os “vilões” por grande parte da população. No entanto, economistas explicam que o aumento de preços não acontece por conta de ações isoladas de comerciantes ou produtores.

“A inflação é provocada por ações dos governos e seus bancos centrais. Mas a narrativa que tentam colocar é que o empresário é malvado porque aumentou os preços”, diz Richard Rytenband, economista e CEO da Convex Research.

É importante lembrar que a alta de apenas alguns produtos não significa inflação de preços. Para que seja caracterizada a inflação, é necessário que haja um aumento generalizado. Ainda assim, Rytenband vêm alertando há um bom tempo sobre o risco da volta da inflação. Confira a live de agosto deste ano, em que ele trata sobre o assunto.

Ele explica que a inflação é um fenômeno monetário, ou seja, é provocada quando a oferta de moeda na economia aumenta sem que a quantidade de produtos e serviços cresça na mesma proporção.

E é justamente o que vem acontecendo no Brasil. De acordo com dados do Banco Central, o aumento da oferta monetária é o maior em uma década no país e está em níveis próximos de 1997, período da Crise Asiática, e de 2002, quando vivemos fortes turbulências por conta das eleições presidenciais.

O problema é que a capacidade de produzir bens e serviços de um país não é determinada pelo dinheiro que está em circulação, mas sim, por fatores como sua produtividade, a quantidade de matéria prima disponível, a disponibilidade de mão de obra, a tecnologia empenhada, por um arranjo de fatores.

Assim sendo, se há muito dinheiro em circulação, mas a quantidade de produtos e serviços oferecidos não acompanha, o resultado tende a ser um pressão inflacionária, com o aumento generalizado de preços.

Presidente quer que empresários reduzam margem

O presidente Jair Bolsonaro chegou a pedir para que os donos de supermercados e estabelecimentos comerciais evitem aumentar o preço de itens básicos, como o arroz, feijão e óleo, mesmo que para isso eles tenham que reduzir suas margens de lucro para algo próximo de zero.

A medida, no entanto, onera os empresários e empreendedores com uma conta que não é deles, mas sim, da própria política monetária adotada pelo governo que agora começa a perceber as consequência de seus feitos na economia.

IPCA ainda não reflete alta, mas outros índices já preocupam

Também é preciso lembrar que a injeção de dinheiro pelo BC muitas vezes não resulta em uma alta imediata nos índices de inflação, que possuem metodologias específicas de cálculo e podem não refletir o momento exato das distorções.

O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), por exemplo, ainda não apresentou uma variação tão expressiva. Em julho, o índice registrou variação de 0,36% e em junho a alta foi de 0,26%, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

No entanto, outros índices mais sensíveis à variação do dólar e aos preços do atacado já mostram uma tendência de forte elevação. É o caso do IGP-M (Índice Geral de Preços – Mercado), que nos últimos 12 meses já subiu 9,27%, contra apenas 2,31% do IPCA.

Diferentemente do IPCA, que busca refletir os preços ao consumidor final, mais da metade da composição do IGP-M (60%) se refere a preços no atacado, que costuma antecipar as variações de preços no varejo.

O Índice de Preços ao Produtor (IPP) também disparou no mês de julho, com uma variação de 3,22%, a maior da série histórica (iniciada em janeiro de 2014).

 

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