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FGV vê cenário nebuloso em 2021 e diz que mercado teme insolvência

29.Outubro.2020

Apesar da abertura gradual da economia no último trimestre e da melhora na projeção de queda do PIB (Produto Interno Bruto) do país este ano, a FGV (Fundação Getulio Vargas) aponta que o cenário continua bastante nebuloso para o ano que vem. Em seu último Boletim Macro, divulgado no final de outubro, a instituição indica diversos pontos que continuam causando incertezas e impactando o mercado financeiro brasileiro.

“Para 2021 as dúvidas em relação ao comportamento da economia vêm se intensificando. A alta dos juros nos mercados futuros evidencia piora nas condições de rolagem da dívida pública, além de preocupações com o comportamento da taxa de câmbio e da inflação”, diz o relatório.

Os economistas da FGV apontam que, apesar de a inflação ainda estar abaixo da meta, o risco fiscal passou a ser um fator importante no comportamento dos mercados. “As dúvidas sobre a capacidade de o país estabilizar a dívida pública reduziram a correlação entre os prêmios de risco e a inflação. Os elevados prêmios de riscos são explicados pelas incertezas sobre a solvência do governo”, diz um trecho do relatório, assinado pelos economistas Armando Castelar Pinheiro e Silvia Matos.

Os rendimentos dos títulos públicos atrelados à inflação, por exemplo, deram um salto desde o começo do ano. No dia 2 de janeiro, o Tesouro IPCA+ com vencimento em 2045 pagava 3,13% ao ano mais a inflação do período. Hoje, este mesmo título oferece um retorno de 4,15% a.a acima do IPCA.

No Tesouro Prefixado, a situação é parecida. O título com vencimento em 2025 pagava 6,42% a.a. Agora, o título que vence em 2026 (que substituiu o vencimento de 2025) oferece um retorno de 7,76%.

Mesmo no Tesouro Selic, o deságio (pequena parte prefixada do título) normalmente fica muito próxima do zero, disparou e provocou uma forte queda dos papéis que já estavam no mercado.

Na opinião da entidade, a única maneira de tirar pelo menos parte das tensões nos mercados de juros, facilitando assim uma retomada mais significativa do crescimento econômico, parece ser pelo corte profundo da expansão das despesas obrigatórias do governo.

“O drama é que o Executivo não dá sinal de apetite por tomar medidas compatíveis com essa necessidade. Na medida em que não haja um encaminhamento satisfatório para a questão fiscal do momento, a insegurança e as preocupações dos participantes de mercado persistirão. Prêmios de risco fiscal continuarão embutidos nos juros de mercado, para não falar da persistência de prêmios semelhantes em outros segmentos, como os mercados de ações e de câmbio”, destaca o economista José Júlio Sena.

O próprio FMI (Fundo Monetário Internacional) também alerta para as contas públicas no Brasil. Com estímulos fiscais em torno de 8% do PIB este ano, a entidade aponta que a dívida bruta ultrapassará 100% do PIB em 2020, sendo que a previsão para a média da América Latina é 81,6% do PIB.

Pressão inflacionária

Apesar de a inflação oficial do país, medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) ainda estar dentro da meta, a FGV destaca que outros índices, como o IGP-M (Índice Geral de Preços – Mercado) vêm mostrando um forte aumento desde o começo da pandemia. 

Em outubro, por exemplo, o índice registrou alta de 3,23%, o que resultou em uma inflação acumulada de 18,10% no ano e de 20,93% em 12 meses. “A pressão inflacionária começou em março – início da fase de isolamento social –, impulsionada pela demanda naquele período, que sustentou alta destacada para gêneros alimentícios nos meses de março (1,4%) e abril (2,24%)”, diz a FGV.

Com tantas incertezas no radar, a instituição prevê um crescimento de 3,5% para o ano que vem, mas diz que pode revisar esse número para baixo. “Ressaltamos que uma possível piora do cenário fiscal prospectivo e o consequente aperto das condições financeiras por prazos mais longos colocariam um importante viés negativo em nosso cenário base para o próximo ano”, concluem os economistas.

 

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